Quando comecei a apostar em 2017, o mercado português de jogo online estava numa fase de adolescência — regulamentado há pouco tempo, com meia dúzia de operadores, e um volume de apostas que parecia impressionante na altura mas que hoje faz sorrir. Em menos de uma década, este mercado multiplicou-se várias vezes, e acompanhar essa evolução através dos números do SRIJ tornou-se parte do meu trabalho de análise. Cada trimestre, quando o regulador publica novos dados, paro tudo para os estudar. Veja também: Consulta melhores casas de apostas desportivas online para dados. Compara com o mercado europeu de apostas.
Os dados que vou partilhar contam a história de um sector em expansão acelerada. Portugal ultrapassou a barreira dos mil milhões de euros em receita bruta de jogo online em 2024, e continuou a crescer em 2025. Os portugueses apostaram em média 63 milhões de euros por dia durante esse ano — um número que ainda me impressiona quando paro para pensar nele. Perceber estes números não é apenas curiosidade académica — é informação que ajuda a entender para onde o mercado está a evoluir e quais as implicações para quem aposta.
Receitas do Mercado em 2025
O ano de 2025 consolidou Portugal como um dos mercados de crescimento mais rápido na Europa. A receita bruta de jogo online — o GGR, que representa a diferença entre o que os jogadores apostam e o que recebem — ultrapassou 1.21 mil milhões de euros. Este número representa o que os operadores retiveram após pagar prémios, antes de impostos e despesas operacionais.
O quarto trimestre de 2025 foi particularmente forte, com uma receita recorde de 337.6 milhões de euros — um crescimento de 4.5% face ao mesmo período do ano anterior e 13.6% face ao trimestre anterior. Ricardo Domingues, presidente da APAJO, descreveu este crescimento como expectável mas significativo, sublinhando o contributo relevante para as receitas fiscais do Estado.
Os trimestres anteriores também mostraram números sólidos: 297.1 milhões no terceiro trimestre (crescimento de 11.6% homólogo), 287 milhões no segundo (9.6% de crescimento), e 284.7 milhões no primeiro — que, curiosamente, representou a primeira quebra trimestral em três anos, embora ainda com crescimento anual de 9.1%. Esta volatilidade trimestral é normal num mercado dinâmico, mas a tendência de fundo é inequivocamente ascendente.
Estrutura do Mercado: Casino vs Apostas
Uma realidade que surpreende muitos é que o casino online domina o mercado português, não as apostas desportivas. Entre 60% e 66% da receita bruta vem do casino — principalmente slots, que representam sozinhas 79-80% de todas as apostas nessa categoria. As apostas desportivas, apesar de toda a visibilidade mediática, ocupam “apenas” 33-40% do mercado.
Esta divisão tem implicações práticas. O volume total de apostas em 2025 ultrapassou os 23 mil milhões de euros, mas a grande maioria — cerca de 21 mil milhões — foi gerada pelo casino. Os dois mil milhões restantes correspondem às apostas desportivas. A matemática explica a diferença: no casino, especialmente nas slots, o mesmo dinheiro pode ser apostado repetidamente em sessões curtas; nas apostas desportivas, cada aposta é mais deliberada e espaçada.
Para apostadores desportivos como eu, esta distribuição significa que somos uma minoria dentro do ecossistema de jogo online português. Os operadores dedicam recursos significativos ao casino porque é aí que está a maior parte do negócio. Isto reflecte-se por vezes na prioridade dada a promoções de casino versus promoções de apostas.
Número de Operadores Licenciados
Em Setembro de 2025, o mercado português contava com 18 operadores licenciados pelo SRIJ, detendo um total de 32 licenças activas. A distribuição destas licenças é interessante: 13 para apostas desportivas, 18 para casino online, e apenas 1 para bingo. A maioria dos grandes operadores detém licenças múltiplas, oferecendo tanto casino como apostas na mesma plataforma.
Este número de operadores pode parecer modesto comparado com mercados não regulados onde dezenas ou centenas de sites competem. Mas a barreira de entrada imposta pelo SRIJ — requisitos de capital, auditorias, sistemas de jogo responsável, servidores em território português — garante que quem opera no mercado tem estrutura e credibilidade.
A concorrência entre estes 18 operadores beneficia directamente o apostador. Odds mais competitivas, bónus mais generosos, funcionalidades mais avançadas — tudo isto resulta da pressão competitiva. Quando um operador inova, os outros seguem rapidamente. Esta dinâmica seria impossível num mercado monopolista ou com poucos players.
Desportos Mais Populares
O futebol é rei absoluto, representando 75.6% de todas as apostas desportivas em Portugal. Este domínio não surpreende — somos um país de futebol, com três clubes de dimensão europeia e uma liga competitiva. A Liga Portugal, a Champions League e as principais ligas europeias absorvem a grande maioria das apostas.
O ténis ocupa o segundo lugar com 10.6% do volume, beneficiando do calendário extenso que oferece acção praticamente todos os dias do ano. O basquetebol completa o pódio com 9.6%, impulsionado principalmente pela NBA mas também pela crescente atenção à Euroliga e a competições nacionais.
Os restantes desportos — automobilismo, ciclismo, hóquei no gelo, eSports, entre outros — dividem entre si menos de 5% do mercado. São nichos que podem ser rentáveis para apostadores especializados precisamente porque recebem menos atenção das casas de apostas, mas o volume de apostas é incomparavelmente menor do que no futebol.
Tendências e Previsões
O crescimento do mercado português abrandou ligeiramente em 2025 face aos anos anteriores de expansão explosiva, mas continua sólido. O presidente da APAJO caracterizou este abrandamento como natural num mercado em amadurecimento, sublinhando que a principal preocupação dos operadores legais é conseguir absorver a procura face à ameaça dos operadores ilegais.
A tendência mobile é irreversível. Na Europa, os dispositivos móveis já geram 58% da receita de jogo online. Em Portugal, a percentagem é provavelmente semelhante ou superior, dada a elevada penetração de smartphones. Os operadores que não oferecem apps nativas e interfaces móveis optimizadas estão em clara desvantagem.
O live betting — apostas ao vivo durante os eventos — representa já mais de 62% do mercado global de apostas desportivas online. Esta tendência reflecte uma mudança no comportamento dos apostadores: em vez de apostar antes do jogo e esperar, preferem acompanhar em tempo real e ajustar posições. Os operadores em Portugal adaptaram-se, e hoje todos oferecem mercados ao vivo extensos com streaming integrado em muitos casos.
