Quando comecei a acompanhar o mercado de apostas europeu, Portugal era um ponto quase insignificante no mapa — recém-regulamentado, com poucos operadores, e volumes modestos. Uma década depois, a transformação é notável. Embora continuemos a ser um mercado relativamente pequeno em termos absolutos, o crescimento português destaca-se na Europa e atrai atenção internacional.
Situar Portugal no contexto europeu ajuda a perceber as nossas particularidades: o enquadramento regulatório, a estrutura fiscal, o comportamento dos apostadores. O que parece normal cá pode ser excepção lá fora, e vice-versa. Neste artigo, vou explorar como nos comparamos com os vizinhos europeus e o que isso significa para quem aposta em Portugal.
O Mercado Europeu de Apostas
A Europa é o maior mercado de jogo do mundo — ponto final. Em 2024, o mercado europeu de gambling gerou 123.4 mil milhões de euros em receita bruta, com um crescimento de 5% face ao ano anterior. Estes números incluem tanto o jogo presencial como o online, desde casinos físicos a apostas desportivas digitais.
Dentro deste universo, o segmento online é o que mais cresce. Em 2024, o jogo online europeu representou 47.9 mil milhões de euros — cerca de 39% do total — com um crescimento impressionante de 11.7%. Maarten Haijer, secretário-geral da EGBA, projectou que em 2025 o online ultrapassaria pela primeira vez os 40% de quota de mercado, uma previsão que parece estar a concretizar-se.
Esta tendência reflecte mudanças nos hábitos de consumo. O jogo online oferece conveniência, variedade e acessibilidade que os formatos presenciais não conseguem igualar. Um apostador pode comparar odds em três plataformas, fazer uma aposta, e acompanhar o jogo ao vivo — tudo a partir do telemóvel, sentado no sofá. Os casinos físicos e as casas de apostas tradicionais continuam a existir, mas perdem terreno ano após ano.
Posição de Portugal na Europa
Portugal é um mercado pequeno em termos absolutos, mas grande em termos de dinâmica. Com pouco mais de mil milhões de euros em GGR online em 2024 — e 1.21 mil milhões em 2025 — representamos uma fracção modesta dos 47.9 mil milhões europeus. No entanto, o nosso crescimento de mais de 32% em 2024 foi um dos mais altos do continente.
Esta combinação de dimensão modesta e crescimento acelerado posiciona Portugal como um mercado interessante para operadores internacionais. A regulamentação é clara e estável, a população é digitalmente literada, e ainda há espaço para crescimento. Não admira que vários operadores europeus de referência tenham entrado no mercado português nos últimos anos.
Em termos de maturidade regulatória, Portugal está bem posicionado. O regime jurídico do jogo online foi estabelecido em 2015, com tempo suficiente para se consolidar e resolver os problemas iniciais. Outros países europeus ainda lutam com enquadramentos fragmentados ou em processo de reforma. A estabilidade portuguesa é um activo tanto para operadores como para jogadores.
Crescimento Comparado
Os 32% de crescimento de Portugal em 2024 destacam-se num continente onde a média é bastante inferior. Mercados maduros como o Reino Unido crescem a ritmos de um dígito. A nossa taxa de crescimento coloca Portugal no pelotão da frente europeu, ao lado de mercados em fase de expansão semelhante.
Este crescimento tem múltiplas explicações. A primeira é simplesmente o ponto de partida: vindo de uma base relativamente pequena, percentagens elevadas traduzem-se em números absolutos ainda modestos. Crescer 32% sobre mil milhões é diferente de crescer 32% sobre dez mil milhões. A segunda explicação é a maturação do mercado — cada vez mais portugueses migram de apostas informais ou casas de apostas ilegais para operadores licenciados.
A terceira explicação é demográfica e cultural. A penetração de smartphones é elevada, a população é relativamente jovem nas áreas urbanas, e a paixão pelo futebol cria uma base natural de interesse em apostas desportivas. Portugal reúne condições favoráveis que nem todos os mercados europeus partilham.
O Papel do Mobile na Europa
O mobile é o motor do crescimento do jogo online em toda a Europa. Em 2024, os dispositivos móveis geraram 58% da receita de jogo online europeia — mais de metade do mercado. Esta tendência é transversal a todos os países e tipos de jogo, das apostas desportivas ao casino.
Portugal acompanha esta tendência, embora dados específicos nacionais não sejam públicos. A elevada penetração de smartphones e a qualidade da rede móvel portuguesa sugerem que a percentagem por cá pode ser igual ou superior à média europeia. As apps das casas de apostas são cada vez mais sofisticadas, oferecendo funcionalidades que rivalizam com os sites desktop.
Para quem aposta, esta realidade mobile tem implicações práticas. As interfaces são desenhadas para ecrãs pequenos, as notificações push avisam de oportunidades de aposta, e a possibilidade de apostar ao vivo de qualquer lugar transforma a experiência. Um adepto no estádio pode apostar no próximo marcador enquanto vê o jogo — uma integração entre o físico e o digital que era ficção científica há uma década.
Tendências Europeias
A EGBA projecta que o jogo online continuará a ganhar quota de mercado, aproximando-se da paridade com o jogo presencial até 2029. Se esta trajectória se confirmar, o mercado europeu online ultrapassará os 60 mil milhões de euros ainda antes do final da década — um crescimento de 30% face aos valores actuais. É uma transformação estrutural do sector que afecta todos os mercados, incluindo Portugal.
Outra tendência relevante é a consolidação regulatória. Vários países europeus estão a apertar regras de publicidade, a aumentar requisitos de protecção ao jogador, e a elevar taxas fiscais. A Alemanha reformou recentemente o seu enquadramento com restrições significativas; a Itália discute alterações; o Reino Unido implementou novas limitações a bónus e publicidade. Portugal pode ser afectado por estas ondas regulatórias, especialmente se a UE avançar com harmonização de regras.
Maarten Haijer tem sublinhado que os operadores membros da EGBA não são apenas contribuintes económicos, mas também estabelecem benchmarks de jogo responsável. Os relatórios de sustentabilidade mostram que mensagens personalizadas de segurança têm impacto real no comportamento dos jogadores. Esta ênfase na responsabilidade pode definir o futuro do sector, distinguindo operadores sérios de operadores predatórios. Veja também: Volta a melhores casas de apostas desportivas online para o mercado europeu. Lê sobre as tendências de apostas desportivas 2026.
Para apostadores portugueses, o contexto europeu importa porque muitos dos operadores que servem o nosso mercado são multinacionais com presença em vários países. As tendências regulatórias e tecnológicas que vemos lá fora acabam por chegar cá — às vezes mais cedo, às vezes mais tarde. Acompanhar o que se passa na Europa é uma forma de antecipar o que poderá acontecer em Portugal.
